Edição nº 24 - 20/12/2010

Os cenários para a educação brasileira - Estudo Técnico -

João Roberto Moreira Alves (*)
Eduardo Desiderati Alves (**)

O Brasil tem extraordinário potencial dentro de um mundo competitivo e, segundo estudos o Fundo Monetário Internacional já em 2011 seremos a sétima economia do mundo. Não será a primeira vez que ocuparemos essa invejável posição, pois nos meados dos anos noventa (1994 e 1995) atingimos esse patamar. Depois caímos até chegar à décima - segunda, em 2002. O mesmo órgão afirma que deveremos manter esse patamar até, pelo menos, 2015 quando poderemos avançar mais ou recuar.

Ficamos somente atrás dos Estados Unidos da América, China, Japão, Alemanha, França e Reino Unido. Como estamos no patamar dos países desenvolvidos cresce o prestígio nas negociações internacionais. Em três décadas o país deve avançar cinco posições na lista das maiores economias. Atualmente o FMI calcula que será de US$ 2,19 trilhões o tamanho do nosso PIB.

Mas o quadro não é tão auspicioso se analisarmos pela ótica do desenvolvimento humano. O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) mostrou que, dentre 169 países, estamos em 73o lugar. A principal causa dessa fraca posição é que a escolaridade "trava" o desenvolvimento. A esperança de vida subiu para 72,9 anos, mas a média de anos de escolaridade é pequena (7,2 anos).

Temos hoje cerca de 220.000 escolas, entre públicas (185.000) e privadas (35.000) onde estudam sessenta milhões de alunos. Atingimos, na educação básica, uma universalização e os mais de 5.500 municípios dispõem de rede de estabelecimentos de ensino. Em termos de escolas há muito mais públicas do que particulares. Temos 97,6% das crianças na escola, o que é positivo.

Já no ensino superior possuímos 2.500 instituições, com uma forte predominância (89%) de unidades mantidas pela livre iniciativa. O número de alunos é reduzido, se observarmos as necessidades de graduados para alavancar o progresso e consolidar a democracia.

Não temos conseguido erradicar o analfabetismo, que atinge a 14,1 milhões de pessoas. Computando-se os analfabetos digitais esse número se eleva substancialmente. Nas avaliações nacionais ou internacionais os resultados são ruins.

Estudos em todo o mundo indicam que um dos diferenciais para explicar o desempenho dos estudantes é o que hoje se chama "capital cultural. É algo farto para os ricos, cujos filhos vão a museus e tem bibliotecas em casa. Escolas públicas que se destacam exibem, além de foco na leitura, atividades extracurriculares voltados às artes, ou seja, oferecem chance de expressão e de encantamento com o belo. O baixo capital cultural é uma das explicações para o fato de estarmos tão mal na questão da educação.

Um fato que merece comentário é que a maioria das bibliotecas públicas municipais brasileiras não abre nos finais de semana, não oferece serviços para portadores de deficiência e também não conta com qualquer atividade de extensão, como oficinas e rodas de leitura. Em relação ao acesso à internet das 64% que têm computador, só 25% oferecem conexão com os usuários.

Investe-se pouco na educação, com um gasto de 5% do Produto Interno Bruto. Há promessas de elevar para 7% em 2011 e chegar a 10% em 2020. Mas, além de ter recursos suficientes é preciso existir um processo de bom aproveitamento das verbas públicas. Gasta-se muito com a educação superior (especialmente a mantida pela União), em detrimento da educação infantil, fundamental e média.

Um trabalho realizado pelo movimento "Todos pela Educação" destacou que existem sete principais desafios a serem enfrentados. São eles: Inclusão, até o ano de 2016, de todas as crianças e adolescentes de 4 a 17 anos na escola; universalização do atendimento da demanda por creche, nos próximos dez anos; superação do analfabetismo, especialmente entre a população com mais de 15 anos de idade; promoção da aprendizagem ao longo da vida para toda criança, adolescente, jovem e adulto garantia de que, até o ano de 2014, todas as crianças brasileiras com até os 8 anos de idade estejam alfabetizadas; estabelecimento de padrões mínimos de qualidade para todas as escolas brasileiras, reduzindo os níveis de desigualdade na Educação e ampliação das matrículas no ensino profissionalizante e superior.

As metas são atingíveis desde que existam determinação e comprometimento de longo prazo. O Brasil peca por não cumprir os planos plurianuais e transforma a educação em projeto de governo e não de Estado.

No início da década de 2000 o Congresso Nacional aprovou o Plano Nacional de Educação para o período de 2001 a 2010. O então presidente da República o sancionou, transformando em lei. Apesar de ser muito detalhista, contendo mais de 300 metas, somente um terço chegou a ser cumprido.

O governo federal esqueceu totalmente a lei e resolveu criar o Plano de Desenvolvimento da Educação (conhecido como o PAC da Educação), através de diversos instrumentos frágeis e que foram sendo esquecidos ou parcialmente cumpridos, muitos deles com objetivos duvidosos.

Objetivando definir novas bases para o PNE de 2011 a 2020 foram mobilizadas diversas frentes, inicialmente nas cidades, com as Conferências Municipais de Educação, posteriormente nas unidades da Federação, através das Conferências Estaduais e no primeiro semestre desse ano, com a Conferência Nacional de Educação. Foram criados inúmeros grupos de trabalho e elaborado um documento final, com seis eixos temáticos a serem considerados no projeto de lei que será analisado pela Câmara dos Deputados e pelo Senado Federal.

A proposta, contudo, não foi encaminhada pelo Ministério da Educação ao presidente da República para elaboração de mensagem ao Legislativo. Em termos práticos isso significa que estaremos um vácuo legislativo sem a vigência do atual e a existência de um novo Plano Nacional de Educação.

Com base nessa lacuna a nova Presidente irá definir, a seu critério, as linhas de ação que irão nortear as medidas no âmbito do governo federal. O mesmo ocorrerá pelos governadores nos Estados e no Distrito Federal e pelos prefeitos nos Municípios.

Os resultados podem ser desastrosos eis que concentrar-se-á tudo no Executivo, sem a participação, sequer, dos parlamentares que tem o dever de representar a sociedade brasileira nas grandes questões nacionais.

(*) Presidente do Instituto de Pesquisas Avançadas em Educação
(**) Diretor do Grupo BESF – Brasil Educação Sem Fronteiras

Arquivo:
Edição Atual: Os cenários para a educação brasileira - Estudo Técnico
Edição nº 23 - 04/10/2010: Educação para o Século 21 - Estudo Técnico
Edição nº 22 - 25/06/2010: Considerações acerca do Sistema de Cotas no Brasil - Estudo Técnico
Edição nº 21 - 07/06/2010: Os novos caminhos (ou descaminhos) para um novo Plano Nacional de Educação - Estudo Técnico
Edição nº 20 - 31/04/2010: A tecnologia educacional e a qualidade do ensino - Estudo Técnico
Edição nº 19 - 31/03/2010: As publicações abertas e sua influência no mundo moderno e sem fronteiras - Estudo Técnico
Edição nº 18 - 02/03/2010: O crescimento da população mundial e os desafios da educação - Estudo Técnico
Edição nº 17 - 15/01/2010: Aspectos quantitativos da educação superior brasileira - Estudo Técnico
Edição nº 16 - 02/09/2009: O uso da educação a distância nos programas sociais
Edição nº 15 - 18/03/2009: As novas tecnologias e os reflexos nos direitos autorais
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Edição nº 13 - 11/06/2008: A Expansão do Ensino Superior: A Economia de Mercado e suas Impactantes na Gestão das IES, no Papel dos Coordenadores de Cursos e Outros Atores. – Um Olhar Pessoal
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Edição nº 09 - 21/02/2008: A omissão governamental na educação brasileira e seus reflexosno desenvolvimento do país
Edição nº 08 - 30/11/2007: Transparência
Edição nº 07 - 06/11/2007: A educação superior a distância: uma análise de sua evolução no cenário brasileiro
Edição nº 06 - 15/10/2007: As Mudanças no Processo de Ensino Aprendizagem Diante das Novas Tecnologias
Edição nº 05 - 17/09/2007: Considerações acerca da versão preliminar sobre os novos Referenciais de Qualidade para Educação Superior através da Metodologia de Aprendizagem a Distância
Edição nº 04 - 30/08/2007: Avaliações internacionais põem educação brasileira em xeque
Edição nº 03 - 02/08/2007: Portarias Normativas da educação superior na modalidade a distância
Edição nº 02 - 26/06/2007: Educação a distância: uma necessidade social
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