Edição nº 12 - 15/05/2008

Ignorância prejudica

Fonte: JC - Opinião
Janguiê Diniz
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O Brasil comemora um recorde na geração de empregos formais. Criou-se, no ano passado, 1,6 milhão de vagas com carteira assinada contra 1,2 milhão em 2006. E mais: o saldo entre admissões e desligamentos foi 31% superior no comparativo anual, segundo o Cadastro Geral de Empregos (Caged). Os números sugerem um cenário promissor para o País, mas esse avanço na geração de empregos esconde um fenômeno aparentemente contraditório: novas oportunidades têm sido criadas, mas muitas vagas não estão sendo preenchidas por falta de qualificação profissional.

As deficiências educacionais têm custado caro ao Brasil. Sobretudo, porque abalam uma das vigas centrais de sustentação de um país: a economia. A ignorância prejudica a saúde econômica brasileira. É a partir desse entendimento que se deve buscar compreender a gravidade da situação educacional, se o objetivo for superar os entraves existentes e alcançar o crescimento. Até lá, sem dúvida, será necessário dispensar esforços hercúleos, já que a posição na qual figura o País em nível mundial está longe de ser motivo de orgulho.

Estamos entre os piores do mundo no que se refere à educação básica, segundo dados do Programa Internacional de Avaliação dos Alunos (Pisa). Exames feitos por 400 mil alunos de 57 países, em 2006, nos colocam no 49º lugar em habilidade de leitura. Em matemática, amargamos a 4ª pior posição no ranking. O fracasso escolar identificado pelo Pisa repercute no mercado de trabalho. Sem saber ler e fazer contas, nossos profissionais não têm atendido à demanda das empresas.

No Estado, o impacto das deficiências educacionais na economia é evidente. Mesmo com a chegada de grandes empreendimentos – como a Refinaria Abreu e Lima e o estaleiro Atlântico Sul –, a nova terra das oportunidades esbarra em dificuldades devido à falta de qualificação. Serão criados 263 mil empregos, mas não se sabe se os pernambucanos estarão preparados para ocupá-los. O problema se verifica nos diversos pólos produtivos do Estado. No de confecções de Caruaru, Toritama e Santa Cruz do Capibaribe, analfabetos suprem as necessidades de produção, e 30% da mão-de-obra vêm de fora.

As dificuldades também se verificam no Pólo do Araripe, onde se concentram 95% da produção de gesso do País. Nessa região, quase metade da população é analfabeta e 80% têm menos de oito anos de estudo. A mão-de-obra é restrita até mesmo para o desempenho de atividades pouco complexas. Mesmo quando há oferta de profissionais que sabem operar os equipamentos, muitos são dispensados por não saberem ler. No Vale do São Francisco, onde a fruticultura irrigada movimenta a economia, menos de 20% dos que buscam a Agência do Trabalho seguem para o mercado. Motivo: baixa escolaridade.

Tendo em vista a dimensão do desafio, será preciso um verdadeiro trabalho de equipe para alcançar resultados significativos. Tanto o governo quanto o setor privado precisam fazer a sua parte. Para as empresas, investir na qualificação dos funcionários e desenvolver ações nas comunidades são formas de contribuir para a superação dos problemas educacionais e de alcançar seus objetivos corporativos, sem abrir mão da responsabilidade social. Parcerias com o governo são essenciais, sobretudo, em iniciativas voltadas para a alfabetização de crianças e adultos e o combate à evasão escolar. São posturas que demonstram a compreensão de uma perspectiva estratégica: sem educação, parcela importante do investimento no crescimento do País estará indo para o ralo.

» Janguiê Diniz é diretor-geral da Faculdade Maurício de Nassau.

 

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