Edição nº 10 - 26/03/2008

Como mudar a educação com o uso de tecnologias

Paulo Nathanael Pereira de Souza(*)

1- Diagnóstico sumário da educação brasileira, como condição para o desenvolvimento.

Tornou-se lugar comum, nos dias atuais, afirmar que a educação é o mais importante insumo no desenvolvimento das nações. Isto porque, sem ela, o progresso faz-se impossível, tendo em vista o grau de participação da ciência e da tecnologia na estrutura e no funcionamento da sociedade moderna. Vive-se a era da informação, e quem não possuir um mínimo de formação geral, que já não se confunde apenas com a arte de ler, escrever e contar, mas impõe um saber maior que envolve conhecimentos outros, como: alguma familiaridade com uma língua estrangeira e o domínio básico do uso do computador, não terá lugar ao sol na disputa por trabalho e realização pessoal. Bacon, o grande filósofo inglês do século XVI, foi um profeta ao enfatizar nos seus escritos que saber é poder. Se vivesse, hoje, poderia ser havido como um ícone dos novos tempos.

A análise das razões do sucesso dos países chamados afluentes, neste início do século XXI, a saber: China, Índia, Coréia, Chile, para só citar os principais, leva sempre à certeza de que, onde a educação do povo foi levada a sério, o desenvolvimento acelerou-se. Zerar o analfabetismo e garantir matrícula para 90% das crianças de zero a seis anos na educação infantil, além de 100% para as de sete a quatorze anos e cerca de 90% no ensino médio às que concluem o fundamental, mais cerca de 10% dos que se formam no ensino médio e buscam o ensino superior, bem como assegurar a todos esses níveis e tipos de escolaridade e necessária qualidade acadêmica. Essa seria a fórmula ideal de uma educação voltada para a prosperidade de uma nação. Pelo menos foi isso o que efetivamente ocorreu na Coréia, considerada o grande exemplo a ser seguido, modernamente, pelos candidatos ao sucesso internacional. E o Brasil, como fica em todo esse mosaico de países, que lutam para sair do atraso econômico-social em que vivem desde há muito? O Brasil face aos problemas de sua educação não vai bem.

Todas as avaliações, de aprendizagem feitas internamente pelo MEC, ou externamente pela UNESCO, têm demonstrado um resultado pouco satisfatório no aproveitamento escolar da infância e da juventude. Conforme se lê nos relatórios referentes ao setor, só há um sucesso a comemorar entre nós: é o atingimento de 97% de matrículas no ensino fundamental para as crianças com sete anos de idade. Trata-se de uma vitória quantitativa, importante, mas insuficiente, eis que o nível de qualidade desse, e dos demais graus e tipos de ensino, continua a flutuar entre o ruim e o péssimo. Para se ter idéia da precariedade instalada, em nível nacional basta dizer que o estudante brasileiro que chega ao último ano do ensino médio, isto é, com dez anos de escolaridade, não sabe calcular médias aritméticas, resolver problemas que envolvam porcentagens, nem lidar com juros simples. Também é incapaz, ao ler um texto, de compreender a relação entre uma tese e os argumentos que a sustentam. Não é à toa que o país tem obtido o último lugar no elenco do PISA, avaliação executada pela OCDE e destinada a aferir a capacidade de leitura dos alunos. Esse quadro desolador em relação ao aproveitamento escolar agrega outros fatores negativos, como: alta repetência e uma taxa absurda de evasão em todas as séries do ensino básico que chega no ensino fundamental, a atingir 40%, da 1ª para a 2ª série. Ademais, observa-se um reflexo patológico desse estado de cousas no ensino superior: a minoria que nele se matricula (cerca de 4% dos formados no ensino médio), apresenta um tal montante de desaproveitamento escolar, que a universidade se viu obrigada, ultimamente, a funcionar no mais baixo nível de aprendizagem, que se possa imaginar. Haja vista o que se passa no exame de Ordem da OAB. Pouco se deve esperar de um ensino que, não tendo clientes capazes de aproveitá-lo, na inteireza da complexidade de estudos permeados pela ciência e a alta tecnologia, rebaixa suas exigências, e deixa de cumprir sua missão fundamental, que é a de criar uma elite intelectual capaz de colocar o país na vanguarda das exigências da era do conhecimento. A crise universitária aí está, não apenas com as suas penúrias próprias, mas principalmente com as que vem herdando dos graus de ensino, que antecedem o superior. E de nada adianta formatarem reformas, fundamentadas menos na pedagogia e mais na ideologia, a pretexto de salvar a universidade brasileira, eis que sua salvação só terá sentido depois de salvos os ensinos fundamental e médio, que, hoje, formam a base podre dos seus alicerces.

2- O que pode a tecnologia educacional fazer para mudar a educação brasileira?

Na intersecção entre a comunicação e a educação, ao longo de todo o século XX, surgiram tais e tantas inovações tecnológicas, a partir do rádio, da televisão e do cinema, até os computadores e os satélites de transmissão, que é de admirar não tenha havido, ainda, com base nelas, uma ampla e profunda revolução em toda a educação mundial. Se no planeta, como um todo, mesmo nos países de ponta, o uso dessa tecnologia em favor da qualidade e da modernização do ensino, tem sido modesto e insuficiente, o que dizer do Brasil, onde, ainda, se ouvem das autoridades, restrições absurdas a projetos, como os de ensino a distância ou de inclusão da Internet aos usos e costumes escolares? Esses palpiteiros de gabinete, além de ignorarem o potencial de benefícios carreados pelas novas tecnologias, ainda ficam naquelas afirmações tolas e insustentáveis de que a educação presencial seria sempre mais séria e eficaz, do que as demais oriundas dos avanços tecnológicos. A legislação relativa ao uso do computador e outros mecanismos, na educação editada pelos dirigentes dos sistemas de ensino se faz sempre com o fim mais de barrar, do que de incrementar a inserção da escola nos progressos da tecnologia.

Torne-se, o caso da EAD. Para usá-la, a lei exige que a escola se credencie no MEC e que os programas se aprovem nos Conselhos de Educação. Como nesses órgãos escasseiam os especialistas nos novos conhecimentos, fazem-se normas, que refletem a importância geral, sobre o tema eis que só cuidam de medidas de segurança, quanto à qualidade do ensino as quais, na verdade, acabam por não assegurar coisa alguma. Algo que espanta nessas normas é a insistência com que se fala na EAD, como se se tratasse de uma modalidade de ensino, com epistemologia e fins próprios, como se fora ela mesma também um tipo de ensino. Uma lástima, que evidencia a profunda incultura dos responsáveis pelo assunto, eis que a EAD, como qualquer outra forma de didática voltada para o ato de educar, não se contrapõe à educação presencial. É apenas uma nova linguagem pedagógica, que combina a ação preparatória e supervisionadora dos professores, com o uso do instrumental eletrônico (ou até mesmo outros, menos sofisticados, como a correspondência, por exemplo) à disposição dos alunos para obviar resultados melhores na aprendizagem. Tanto faz, do ponto de vista dos resultados, que essa aprendizagem se faça presencialmente, por EAD, ou por processos combinados de uso de ambos. O essencial é que haja aprendizagem eficaz.

Com tanto preconceito e tanto desconhecimento interferindo nas decisões sobre o papel da tecnologia educacional nos processos educativos, não admira o fato de assistirmos penalizados à consolidação do atraso nas redes escolares do país. Muito da incapacidade de aprendizagem dos alunos – sua reprovação e evasão – nasce do desinteresse, do tédio e desse gap, que se alarga sempre, entre a tecnologia da informação e os bla-bla-blas diários das salas de aula. O aluno costuma estar, em matéria de informação, muito à frente de seus professores, o que explica, em parte, o desajuste entre as lições da escola e a aprendizagem informal, via Internet, que os jovens acabam obtendo, seja nos seus próprios computadores, seja naqueles que se alugam no cyber-café ou nas lan-houses da vida.

Como escrevemos, certa vez, em artigo publicado pela revista “Agitação (Ano XI, nº 60)”: no Brasil convivem três tipos de analfabetismo – o puro, que reúne milhões de adultos, que nunca passaram pela escola; o funcional, que reúne outros milhões, que passam pela escola e pouco ou quase nada aprendem; e o tecnológico, que atinge principalmente os professores, que ainda não descobriram os computadores, e estão perdendo a autoridade didática perante seus alunos. Assim, parodiando Castro Alves, que dizia ser importante semear livros à mancheiras, mister se faz agora distribuir milhões de computadores a mestres e alunos, para que se comece a fazer a grande revolução digital exigida da educação pela era do conhecimento.

O saneamento da educação brasileira e o início de sua qualificação só se fará com uma corajosa reforma global dos sistemas de ensino, pela qual, entre outros procedimentos se assegure a inclusão ampla, radical e funcional da tecnologia, com todas as suas mais recentes conquistas, à didática nossa de cada dia. Sem isso, os defeitos de aprendizagem continuarão a crescer nas estatísticas escolares e o Brasil poderá perder a corrida dos países emergentes no rumo da modernidade e do desenvolvimento.

(*)Ex-Presidente do Conselho Federal de Educação e Presidente do Conselho do CIEE

Arquivo:
Edição Atual: O crescimento da população mundial e os desafios da educação - Estudo Técnico
Edição nº 17 - 15/01/2010: Aspectos quantitativos da educação superior brasileira - Estudo Técnico
Edição nº 16 - 02/09/2009: O uso da educação a distância nos programas sociais
Edição nº 15 - 18/03/2009: As novas tecnologias e os reflexos nos direitos autorais
Edição nº 14 - 28/11/2008: Os avanços da tecnologia versus as posturas convencionais na educação
Edição nº 13 - 11/06/2008: A Expansão do Ensino Superior: A Economia de Mercado e suas Impactantes na Gestão das IES, no Papel dos Coordenadores de Cursos e Outros Atores. – Um Olhar Pessoal
Edição nº 12 - 15/05/2008: Ignorância prejudica
Edição nº 11 - 29/04/2008: SINAES AGONIZA
Edição nº 10 - 26/03/2008: Como mudar a educação com o uso de tecnologias
Edição nº 09 - 21/02/2008: A omissão governamental na educação brasileira e seus reflexosno desenvolvimento do país
Edição nº 08 - 30/11/2007: Transparência
Edição nº 07 - 06/11/2007: A educação superior a distância: uma análise de sua evolução no cenário brasileiro
Edição nº 06 - 15/10/2007: As Mudanças no Processo de Ensino Aprendizagem Diante das Novas Tecnologias
Edição nº 05 - 17/09/2007: Considerações acerca da versão preliminar sobre os novos Referenciais de Qualidade para Educação Superior através da Metodologia de Aprendizagem a Distância
Edição nº 04 - 30/08/2007: Avaliações internacionais põem educação brasileira em xeque
Edição nº 03 - 02/08/2007: Portarias Normativas da educação superior na modalidade a distância
Edição nº 02 - 26/06/2007: Educação a distância: uma necessidade social
Edição nº 01 - 18/05/2007: Ao Trabalho


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