Edição nº 04 - 30/08/2007

Avaliações internacionais põem educação brasileira em xeque

Magno de Aguiar Maranhão

Cerca de dois terços dos trabalhadores brasileiros não concluíram a educação básica, o que nos coloca em evidente desvantagem frente a outros países nesta era em que sólido embasamento cultural é indispensável para apreendermos novos conhecimentos que, dia a dia, alteram o modus operandi em nossas profissões (dos 5.507 municípios brasileiros, em apenas 19 a média de escolaridade ultrapassa oito anos). De cada cem alunos da primeira série do ensino fundamental, 27,1 por cento são vítimas da repetência logo na estréia da vida escolar e não mais que 43 por cento chegam ao fim do ensino médio. No entanto, apesar destes problemas, que se arrastam sem solução, foi o item educação (ao lado da expectativa de vida ao nascer, que cresceu de 59,5 para 67,8 anos) o grande responsável por nosso progresso no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano elaborado pela ONU desde 1975. Fomos o país que mais evoluiu no período.

Evoluímos. Mas, para quem acompanhou, paralelamente, a divulgação do estudo “Alfabetização para o mundo de amanhã”, realizado pela Unesco e OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) em 41 países, a fim de medir a eficácia de seus sistemas educacionais, fica óbvio que o IDH considerou aspectos quantitativos. Já o relatório da Unesco, atendo-se à qualidade, lembra que mais da metade de nossos estudantes sequer sabe ler.
 
Assim como o Saeb e o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) são importantes para identificar desacertos na educação básica, avaliações da educação brasileira feitas por organismos internacionais devem ser aceitas por nossas autoridades com boa vontade, pois despertam para a necessidade de rever práticas pedagógicas e promover melhorias estruturais. A meta de qualquer avaliação não é expor alunos, escolas ou países a vexames: é radiografar uma situação para que, com base em expectativas realistas, seja possível traçar planos de trabalho e assumir o compromisso de, em determinado prazo, desobstruir o caminho até os objetivos desejados. Diagnósticos, sozinhos, não servem para nada. 

As demais razões para o fracasso brasileiro são para lá de conhecidas: segundo a Unesco, entre 45 países, o Brasil é o último em gastos públicos com educação. A carga horária média nas escolas é quatro horas, quando, considerando o ambiente adverso em que os mais pobres vivem, o horário integral já deveria ter sido implantado. O número de alunos por sala de aula chega a 40, embora o máximo tolerado seja 30. Ostentamos o pior salário pago a professores da primeira a sexta séries e sua formação é precária. A qualidade dos cursos de Licenciatura é baixa. Educadores reclamam, ainda, da insistência no uso de métodos de alfabetização ineficientes. O leitor, com certeza, tem outros itens a incluir nesta lista.

O quadro é negro, a despeito das melhorias: a taxa de matrículas no ensino obrigatório pulou de 86 por cento em 1990 para 97 por cento em 2001; a alfabetização de adultos, de 82 para 87,3 por cento; a taxa de matrículas na educação secundária, de 15 para 71 por cento. Os números, porém, não falam da debandada entre início e fim da educação básica e do analfabetismo que espreita os alunos até nas salas de aula, como praga da qual o país não se livra. Ou reduzimos a evasão, aumentamos os investimentos e rearrumamos todo o sistema educacional, ou podemos guardar jornais de hoje para lermos notícias sobre a educação brasileira daqui a 20 anos, pois elas não mudarão: o analfabetismo funcional continuará empacando a vida de um terço ou mais da população, dois terços dos trabalhadores não terão concluído a educação básica, e os jovens continuarão ocupando as últimas posições em estudos comparativos com jovens de outros países. Aí, sim, as avaliações não terão outra função que não aquela que desejamos evitar: nos expor a um vexame internacional.

 

* Educador e Presidente da Associação de Ensino Superior do Rio de Janeiro
www.magnomaranhao.pro.br

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